Desventuras insólitas e sei lá...

domingo, abril 25, 2010

Estrela do Norte e Outras Lembranças

O texto aqui publicado onde eu tentava desmistificar por completo e explicar meus motivos sobre o caso Carlos teve efeito inesperado. Muitas pessoas que não conhecia do que se tratava ficaram seriamente instigadas. E se digo aquelas coisas de Carlos, grande parte também serve para o Felipe. Felipe sem dúvidas fez uma cirurgia. Ele ainda está se recuperando do trauma fisiológico. Não consegue piscar somente um olho e nem xingar uma pessoa sem ter alguns tiques desconcertantes com o pescoço. Para os últimos curiosos acho que devo contar a história da minha vida inteira. Ora, a vida inteira não há como contar, mas posso contar uma boa parte que agora me vem a memória.

Ai, ai! Bons tempos aqueles que iamos todos juntos para Estrela do Norte. Estrela do Norte fica ao norte do estado e como se não fosse o bastante ela sempre volta para formentar a saudade. Hehehe! Eramos pequenos e a vida inocente, se quiséssemos parar bastava levantar a mão e dizer: "Ô boi que leva a gente para os cantos curiosos do mundo, me espere devagar que a vida é curta e não temos por que chorar. Ô boi que descansa na pista da madeira não adiante o passo mais nenhum estante que estamos por quebrar esta toada. Ô boi que viaja na carredeira não diga que o diabo nós aguarda por que estamos próximos daquele tempo sem fim da nossa brincadeira." É bom lembrar de Estrela do Norte. Naquele tempo não havia nada disso. Não havia fogão, não havia chuveiro elétrico, não havia lareira e não havia "meio intelectual", nem ao menos havia Carlos.

Neste mundo não há somente um Carlos, existem vários Carlos. Cada um deles com seus sobrenomes e CPFs próprios. Se quando era pequeno ia para Estrela do Norte, brincar no Capim de Raiz, foi só mais velho, aos meus 9 anos que conheci o prostíbulo da Renatinha Pramoia Maravilha. Como eram boas aquelas noites de sexo sem camisinha com aquelas mulheres da vida, todas peludas, gordas e velhas. Era um sexo calmo, suado, de movimentos rápidos. Diferente dos paradoxais destes tempos. Quando o tio Toninho Casca de Pimenta da Caraíba me levou pela primeira vez ao puteiro da Maravilha foi um dia inesquecível. Ele me apresentou a Renatinha. "Renatinha, este aqui é meu sobrinho das bandas do Anápolis distraído. Arrume uma menina bonita para que ele possa meter e assim perder a sua virgindade. Arrume uma menina prendada e que faça um sexo gostoso." Fiquei sem graça ouvindo meu tio falar da minha virgindade de forma tão explícita. No outro dia nadei no grande Lago da Jabutica. Acho que ninguém tão feliz já nadou naquele imundaçal.

Já maior fui trabalhar no boteco do seu Judair Juntório. Ele me ensinou tudo que hoje sei sobre literatura. Apesar de não saber ler tinha uma vasta biblioteca e sempre me contava histórias sobre os escritores do velho continente. "No velho continente as coisas são bem distintas daqui. Uma vez um escritor que agora me esqueci o nome teve um caso ardente de amor com uma jovem imperatriz que era prometida para um médico da região. O imperador mandou então todas as pessoas da aldeia ficarem de pé e ele foi olhando uma por uma até chegar ao escritor. Então disse: 'Pão que...'" Foi ao meio desta história que o velho Judair Juntório teve seu primeiro enfarto. Até hoje me pergunto o que aquele imperador teria dito para o jovem escritor. Seria algo surpreendente que ligue a alma às estrelas do céu? Ou algo banal nada demais? Eu devia perguntar isso para ele.

O boteco do seu Judair Juntório era frequentado por muitos artistas e intelectuais da região. Fiz amizade naquele tempo o bispo Timóteo. Timóteo era um sujeito excêntrico. Passeava todo dia de manhã com seu cachorro azul. Mais tarde ia ao jardim atirar pedras nas arvores. E o resto da tarde passava lendo filosofia medieval. Ele era doutor em física quantica e antes de se mudar para a cidade tinha sido chanceler da cátedra de João de Falassós e possuidor de uma ótima cadeira na universidade de Marúlia. A cadeira era muito bem posicionada. Ficava de frente à piscina. As tardes de sábado em Marúlia era regada a muita cerveja e churrasco dizia ele.

Havia outros caracteres interessantes no boteco do seu Judair Juntório. Falcúro tinha sido trapezista na Alemanha durante o regime nazista. Gostava muito de tossir e tomar bebidas quentes. Ofário era um bom artista. Esculpia de tudo com sabonete. Janoéte era o melhor escritor. Dizia que um homem para ser bom escritor tinha que desprezar a todos, principalmente seus amigos mais próximos. Ele era uma pessoa de difícil trato. Gostava de atirar pedaços de carne crua pela janela nos transeuntes que transeavam em frente a sua casa. Acho que este texto já está deveras grande. Continuarei a contar minha história em outra publicação digital mais a frente. Falarei sobre minha viagem a Alemanha socialista, meu caso de amor com uma atriz pornô canhota da Antiga União Soviética e outras coisas. Até mais.

2 comentários:

Rafael disse...

Nossa! Estrela do norte bem como eu me lembro também. A Renatinha eu havia esquecido. rsrs

leitora disse...

hehehehe...
ficção-marshmallow...
ah que delicia!!