Desventuras insólitas e sei lá...

segunda-feira, maio 17, 2010

Alma Bêbada

Não sei como cheguei em casa. Estava podre de bêbado. Dormi. E minha alma saiu do corpo. Foi até a cozinha. Mexeu nas panelas procurando comida. Não encontrou nada. Passou mal e vomitou na pia. Tentou fazer não sei que coisa que tropeçou e caiu dentro do lixo. Depois saiu do lixo, tirou a roupa e resolveu que iria fritar uns ovos. Lá estava eu. Pelado, sujo, bêbado e fora corpo tentando fazer ovos fritos. Como não tinha ovos em casa, sai para comprar. Fui a padaria perto de casa, mas estava fechada. Vaguei por toda esta cidade. Tudo estava fechado. Então fui até a casa de um amigo. Toquei a campanhia. Ninguém me atendeu. Resolvi pular o muro. Cai de cima do muro. Me esfolei todo. Que situação complicada! Um cachorro ficou me cheirando. Com muita dor me levantei e fui andando mancando para dentro da casa. O cachorro não parava de latir. Quando entrei na casa fiz muito barulho, mas parece que ninguém acordou. Fui cambaleando até a cozinha. Mechi em tudo, mas não encontrei merda alguma. Fui acordar alguém para perguntar onde eles guardam os ovos. Tentei de tudo para acordar a dona da casa. A mulher meio que acordava, meio que entendia o que eu estava dizendo, mas não acordou. No seu resmungar ela parecia de alguma forma indignada com fato de ter uma alma bêbada na sua casa tentando acorda-la depois de um dia de trabalho cansativo. Desisti. Eu tava com muita sede e vontade de ir ao banheiro. Fui até filtro. Abri, mas não saiu agua. Achei estranho então abaixei para olhar aquilo melhor. Senti um molhado nas minhas calças. Não! Não! Não! Acordei todo mijado!

domingo, maio 09, 2010

Trabalho no Céu

Aqui no céu a coisa anda corrida. Meu superior está me torrando de trabalho e não consigo descansar um dia direito. Relatórios e mais relatórios de almas que vêm chegando. Não sei para que registrar tantos detalhes. Quer dizer! Tem que registrar data de nascimento, causa da morte, país, religião, números diversos, última residência. É coisa demais. Religião? Que coisa mais antiquada. É até falta de educação ficar perguntando religião para alguém logo depois que ela morreu. E é tudo muito burocrático. Eu nunca entendi porque Deus criou tanta coisa. Ele é todo poderoso, etc e tal. Devia ter ficado de boa e não criado coisa nenhuma. Ou um monte de alma extremamente feliz que o amasse e que já nascesse no céu. Algo assim! No lugar disso ele fica criando esse monte de departamentos. Tudo parece tão sem sentido!

Estes dias atrás me mandaram para conversar com pessoas recém chegadas. É um saco! "Oi!" "Oi!" "Você sabe que você morreu, né?" "Sei, sim senhor!" "Legal! Eu entendo que você tem muitas dúvidas, mas não vou poder te responder tudo agora. Mais tarde você vai resolvendo suas questões metafísicas ou quaisquer outras. Aqui tem uns panfletos que eu gostaria que você lesse depois!" E fica aquele clima chato. Mas pior é quando aparece uns caras doidos pulando de felicidade como se tivesse ganho na loteria. Abraça a gente! A maioria chega mesmo é sem graça, tímido e assustando. Fica caladinho. Pega o panfleto e vai embora. Aposto que lê aquela bobagem uma dúzia de vezes.

Teve um tempo que eu estava encarregado de procurar almas penadas. É horrível! Se pelo menos eu fizesse trabalho de campo, mas não, eu tenho que ficar no computador analisando arquivos em busca de inconsistências. Queria mesmo ficar um tempo no mundo real. Fazer alguns milagres misteriosos ou algumas brincadeiras insólitas com os humanos. Seria divertido. Mas conseguir um visto para ir para o mundo tem sido complicadíssimo nestes dias. É um saco!

Precisavam fazer uma reforma geral no sistema. E o pior são estes santos que de santos tem nada. Só querem saber de dar ordens. Já enviei milhares de propostas para a administração. Nunca recebi resposta. Isto aqui é o inferno. Eles deviam mandar todos os calhordas para cá e deixar a gente curtir a vida mansa nos jardins do paraíso. Se eu fosse Deus eu faria as coisas muito diferentes. Eu tiraria o departamento de registro final. Deixaria só o de registro inicial. Também fundiria o departamento de análise de traumas metafísicos com o de registro de trauma geral. Isso pelo menos para começar. Na verdade seria preciso uma reforma completa. Com certeza se todos os anjos se reunissem nós conseguiríamos fazer uma coisa muito mais prática e menos burocrática. Teríamos um sistema muito mais eficiente ou eu não me chamo Lúcifer. Anjos unidos, jamais serão vencidos!

Quem

Quem vai chorar meu choro?
Para quem vou contar?
Com quem posso contar?
Tem alguém aí?
Alguém pra cantar meu choro?
Eu sinto tanta tanta vergonha!

sábado, maio 08, 2010

O Boteco do Seu Judair Juntório - Edição Especial

Sempre que eu me lembro dos meus 15 anos me lembro do Seu Judair. Nenhuma outra experiência me ensinou tanto. E foi lá que mais tarde sai pela primeira vez com Anastasia Sharapova, a ex-atriz pornô canhota da antiga União Soviética que deixou desfigurado para sempre o meu coração. Seu Judair era uma pessoa muito boa e um grande contador de causos. Na verdade, um grande orador. Trabalhei no boteco do Seu Judair Juntório por 3 anos, mas aprendi tanto que parece que vivi lá por décadas. A verdade é que ele me ensinou tudo que hoje sei sobre literatura. Apesar de não saber ler tinha uma vasta biblioteca e sempre me contava histórias sobre os escritores do velho continente. Foi no meio de uma dessas histórias que ele teve o enfarte fulminante que o matou.

Ele gostava de falar principalmente de Juskhrimalthins Waltherló, um escritor sueco que era apaixonado por uma tal de Shisnaldina Malstrathodia. Quando Shisnaldina Malstrathodia casou-se com Buzington de Fraquimalttins, Juskhrimalthins não aguentou e foi morar na Antartida. Juskhrimalthins Waltherló escreveu somente dois livros. Um de poesia intitulado A Sabedoria de um Vento que Poupa Rapisódias no Campo dos Passaros Quesentinos. E um romance intitulado Shasnaldini e Walter Não Conseguem Ficar Sentado Com Papoulas, uma clara crítica à Shisnaldina e seu casamento. Outro escritor que Seu Judair Juntório gostava muito, também sueco, era Walternisson Jurisley Jackson. Em homenagem a este ele batizou o filho com o mesmo nome. Walternisson era um grande boêmio e fumante de charuto. No final de sua vida tentou processar a empresa do tabaco pela sua doença sem muito sucesso. Junto com estes escritores havia muitos outros. Chisvaldin ou O Cantigador da Vidraça; Moltom, um dos maiores romancistas segundo Juntório; Trakinstur de Sapo, um escritor que nunca escreveu em sua língua natal; etc.

Mas naquela época eu fiz grande amizade foi com o bispo Timóteo. O boteco do seu Judair Juntório era frequentado por muitos artistas e intelectuais da região e assim conheci muita gente interessante. Timóteo era um grande leitor de filosofia medieval. Dizia sempre que todos os gênios eram excêntricos e que todo aquele que fosse verdadeiramente excêntrico era um grande gênio. Passou a vida toda tentando encontrar uma boa excentricidade que o tornaria um homem póstumo. Ficou tão decepcionado com sua postura pouco excêntrica que acabou se matando. Ele era doutor em física quântica e antes de se mudar para a cidade tinha sido chanceler da cátedra de João de Falassós e possuidor de uma ótima cadeira na universidade de Marúlia. A cadeira era muito bem posicionada. Ficava de frente à piscina. As tardes de sábado em Marúlia era regada a muita cerveja e churrasco dizia ele.

Havia outros caracteres interessantes no boteco do seu Judair Juntório. Falcúro tinha sido trapezista na Alemanha durante o regime nazista. Todo dia às sete da tarde aparecia com seu copo favorito. Pedia uma pinguinha e um ovo de conserva. Por mais que bebesse nunca caia, provavelmente por causa de sua formação como trapezista. Ofário era um bom artista. Esculpia de tudo com sabonete. Janoéte era o melhor escritor. Dizia que um homem para ser bom escritor tinha que desprezar a todos, principalmente seus amigos mais próximos. Ele era uma pessoa de difícil trato. Gostava de atirar pedaços de carne crua pela janela nos transeuntes que transeavam em frente a sua casa.

Quando fui embora foi um dia triste. Seu Judair Juntório chegou até mim e disse: "Olha aqui, meu minino! Quando a vida te dá uma porrada é bom você entender que é hora de se rebelar bonito, mas se a vida no lugar te dá uma oportunidade, daí tanto faz. O que eu quero dizer é que você deve ir na paz e nunca se esquecer do boteco do Seu Juntório. Que quando você precisar a gente vai tá aqui te esperando." Fiquei dois anos na cidade até que voltei em 70 para ver Timóteo que estava muito debilitado no final de sua vida. Cerca de um ano depois ele se matou. Hoje o que resta é olhar para trás com saudade e nunca se esquecer dessas pessoas incríveis da minha terra que agora já não estão entre nós.

Atacar!

Preparar, atacar. Querido leitor, há pessoas ruins neste mundo. Há pessoas podres, burras, sem graça e malvadas. Há pessoas que esperam boas palavras que afirmem a mentira super repetida que os fracos tanto acreditam. O Diabo, Deus, Cristo, a cruz, a alma, estas são minhas ferramentas, mas as uso ao inverso. Profano o que dizem ser sagrado. E faço isto por fé em outra coisa realmente sagrada e que não existe. Algo que não se diz. Algo que os religiosos bitolados nunca entenderiam, algo feito para os artistas e pelos artistas. Não para os macacos sem classe. E quando falo de classe, falo de classe de verdade. Não esse vestir dinheiro e falar calmo para dar segurança aos fracos. É esta fala mole o maior perigo. É o Diabo seduzindo a fim de comprar almas. E como as almas tem sido sugadas! A televisão, a faculdade, o trabalho, tudo quer um pouco da nossa alma. É preciso preserva-la. Alma é coisa rara. "Não acredito nesse Deus que o povo fala" é o que todos falam. E eu não acredito. E nunca acreditaria neste Deus energia força espécie grosso modo. É hora de atacar. Tem muita coisa errada. Muita coisa fudida!

quinta-feira, maio 06, 2010

Criação

Entre a vida e sonho me pus a descansar. Deus não gostou nenhum pouco, mas hoje eu sou mais eu. Calem-se vozes da minha cabeça. Hoje eu vou descansar e será uma festa! Não, não ligo se me trazerem problemas. Não tenho muitas exigências. Hoje sou forte e vencedor. Tudo dará certo. Mesmo porque tudo deu certo e tudo está certo. Hoje há amor, paixão e muita beleza no ar. As flores sacodem felizes. E não fujo do Mc. Donalds mais. Hoje sou cidadão. Sou a felicidade da terra. Não carrego um grama do fardo nas costas. Entre a vida e o sonho há muita loucura e muita sabedoria. As nuvens dizem bom dia. A lua, boa noite. E chove champanhe! E por isso agora agora me vou.

Vai. Fui. Cheguei. Como aqui é estranho! Tudo é amarelo. Dourado. Não sei o que pensar. O papagaio desmaiou. Não há ninguém com quem eu possa conversar . O chão sobe. Não para quieto. Caí de joelhos. Oh! Estou escorregando. O vento bate forte. Estou a 200 por hora. A mil por hora. Estou fora. Entortei e cai para fora do universo. Estou em algum lugar transitório entre o nada e o impossível. Nunca antes visitado. Perguntam se eu tenho nome. Digo que tanto faz. Hoje eu vim só para me divertir. Venci as leis. Bati os recordes. Sou o primeiro e último a compreender. Venci! As girafas cantam felizes. O monstro azul é meu filho. Já fui filho do tempo, mas agora sou pai de tudo. Seja feita minha vontade! Hoje eu criei o universo.