Desventuras insólitas e sei lá...

sábado, maio 08, 2010

O Boteco do Seu Judair Juntório - Edição Especial

Sempre que eu me lembro dos meus 15 anos me lembro do Seu Judair. Nenhuma outra experiência me ensinou tanto. E foi lá que mais tarde sai pela primeira vez com Anastasia Sharapova, a ex-atriz pornô canhota da antiga União Soviética que deixou desfigurado para sempre o meu coração. Seu Judair era uma pessoa muito boa e um grande contador de causos. Na verdade, um grande orador. Trabalhei no boteco do Seu Judair Juntório por 3 anos, mas aprendi tanto que parece que vivi lá por décadas. A verdade é que ele me ensinou tudo que hoje sei sobre literatura. Apesar de não saber ler tinha uma vasta biblioteca e sempre me contava histórias sobre os escritores do velho continente. Foi no meio de uma dessas histórias que ele teve o enfarte fulminante que o matou.

Ele gostava de falar principalmente de Juskhrimalthins Waltherló, um escritor sueco que era apaixonado por uma tal de Shisnaldina Malstrathodia. Quando Shisnaldina Malstrathodia casou-se com Buzington de Fraquimalttins, Juskhrimalthins não aguentou e foi morar na Antartida. Juskhrimalthins Waltherló escreveu somente dois livros. Um de poesia intitulado A Sabedoria de um Vento que Poupa Rapisódias no Campo dos Passaros Quesentinos. E um romance intitulado Shasnaldini e Walter Não Conseguem Ficar Sentado Com Papoulas, uma clara crítica à Shisnaldina e seu casamento. Outro escritor que Seu Judair Juntório gostava muito, também sueco, era Walternisson Jurisley Jackson. Em homenagem a este ele batizou o filho com o mesmo nome. Walternisson era um grande boêmio e fumante de charuto. No final de sua vida tentou processar a empresa do tabaco pela sua doença sem muito sucesso. Junto com estes escritores havia muitos outros. Chisvaldin ou O Cantigador da Vidraça; Moltom, um dos maiores romancistas segundo Juntório; Trakinstur de Sapo, um escritor que nunca escreveu em sua língua natal; etc.

Mas naquela época eu fiz grande amizade foi com o bispo Timóteo. O boteco do seu Judair Juntório era frequentado por muitos artistas e intelectuais da região e assim conheci muita gente interessante. Timóteo era um grande leitor de filosofia medieval. Dizia sempre que todos os gênios eram excêntricos e que todo aquele que fosse verdadeiramente excêntrico era um grande gênio. Passou a vida toda tentando encontrar uma boa excentricidade que o tornaria um homem póstumo. Ficou tão decepcionado com sua postura pouco excêntrica que acabou se matando. Ele era doutor em física quântica e antes de se mudar para a cidade tinha sido chanceler da cátedra de João de Falassós e possuidor de uma ótima cadeira na universidade de Marúlia. A cadeira era muito bem posicionada. Ficava de frente à piscina. As tardes de sábado em Marúlia era regada a muita cerveja e churrasco dizia ele.

Havia outros caracteres interessantes no boteco do seu Judair Juntório. Falcúro tinha sido trapezista na Alemanha durante o regime nazista. Todo dia às sete da tarde aparecia com seu copo favorito. Pedia uma pinguinha e um ovo de conserva. Por mais que bebesse nunca caia, provavelmente por causa de sua formação como trapezista. Ofário era um bom artista. Esculpia de tudo com sabonete. Janoéte era o melhor escritor. Dizia que um homem para ser bom escritor tinha que desprezar a todos, principalmente seus amigos mais próximos. Ele era uma pessoa de difícil trato. Gostava de atirar pedaços de carne crua pela janela nos transeuntes que transeavam em frente a sua casa.

Quando fui embora foi um dia triste. Seu Judair Juntório chegou até mim e disse: "Olha aqui, meu minino! Quando a vida te dá uma porrada é bom você entender que é hora de se rebelar bonito, mas se a vida no lugar te dá uma oportunidade, daí tanto faz. O que eu quero dizer é que você deve ir na paz e nunca se esquecer do boteco do Seu Juntório. Que quando você precisar a gente vai tá aqui te esperando." Fiquei dois anos na cidade até que voltei em 70 para ver Timóteo que estava muito debilitado no final de sua vida. Cerca de um ano depois ele se matou. Hoje o que resta é olhar para trás com saudade e nunca se esquecer dessas pessoas incríveis da minha terra que agora já não estão entre nós.

3 comentários:

brasil disse...

Tantos se matando assim, hein?

leitora disse...

esse boteco é demais ein? tinha que ser tombado pelo PHPPEN (patrimônio histórico da pequena e pacata Estrela do Norte)

Anônimo disse...

Dianho de post ruim