Desventuras insólitas e sei lá...

domingo, outubro 02, 2011

Sono

Quando você está cansado
E tarde deita à cama
O senhor olha a vasilha de vidro onde guarda sua alma
E a vasilha pouco a pouco vai se enchendo de água
E então tudo parece escuro
E as sombras contorcidas do quarto
Ganham formas
E as idéias que antes eram vapor invisível
Ganham braços, pernas e rostos
E às vezes também clareia
O mundo ganha cores
E paramos para admirar os pequenos detalhes
E é como as paisagens da natureza
Destas que a profundidade se exibe bela
Tem noites que se pode ouvir música
Como se do outro lado
No mundo dos mortos
Alguém tivesse esquecido um radio ligado
Dizem que tem noites que até dá para ver o vulto do senhor

quarta-feira, julho 20, 2011

Hora Destas

É nestas horas
Horas muito parecidas a estas
Que a coisa pergunta
E a interrogação se aloja
E se espalha e me domina
E me golpeia com uma exclamação
Mais triste que reticências
Que entorpece
E me atrapalha a vista
E chia nos ouvidos
E me diz que não
E não sai do meu pé
Eu tento me esquivar
Tento me lavar
Mas cansado sedo
E ela grita
E me ofende
Me fere
Até que como por um tédio
Da ordem natural das coisas
Vai se embora
E me deixa em paz
Feliz novamente
Sem muito o que fazer

quarta-feira, julho 13, 2011

Texto Antigo

Estou montando uma seleção do que já escrevi para caseiramente publicar, ou algo parecido. Este texto estou cortando fora. Mas para não ser simplesmente jogado fora ao esquecimento vou postar aqui no blog. É um texto muito antigo, de quando dando meus primeiros passos por estas bandas...

Aula de filosofia

Vou tentar dar uma pequena aula sobre filosofia para quem quer se ingressar nesse universo mágico!

Antes de qualquer coisa vou dizer que é certamente aceitável que o homem mais inteligente do mundo tenha seu conjunto de ideias praticamente opostas ao do segundo, mesmo aquele aceitando que o segundo é o de fato o segundo. Enquanto isso, o terceiro acha que a ordem está completamente errada e na verdade o vizinho dele é o mais inteligente. O terceiro é o único ser vivo que acredita nesse absurdo e só por isso ele não é o primeiro. Vale lembrar também que filosofia não se trata de inteligência. Há uma grande falta de consenso na discussão de de que a filosofia se “trata” (entre parenteses), mas de fato não se trata de inteligência.

Se você quer ler algo, é importante que você tenha amplo domínio das questões metafísicas. De como o nada pode ser nada se ele é algo, por exemplo. Depois é fundamental esquecer completamente a metafísica, jogar todo esse conhecimento na lata de lixo e ler o texto da forma mais literal possível a não ser quando o autor está sendo engraçado, ou seja, irônico. Porem em alguns textos filosóficos, bem raros por sinal, a predominância é a ironia.

Existem correntes de pensamento que discordam completamente de tudo o que eu disse até aqui. Na verdade discordam todas as correntes e todos os filósofos fora o homem mais inteligente e o vizinho daquele cara. Por fim, sou obrigado a dizer que esse texto está longe de ser um texto filosófico, ele é somente humorístico, ou seja irônico.

quinta-feira, junho 16, 2011

Sentimentos

Às vezes eu olho para as abas do Chrome e choro.
Um aperto no peito, os olhos se molham e a minha alma desaba.
E aquele ódio ao Google e sua hegemonia sobre a vida e a civilização
Que me atormentam todos os dias
Não conseguem me fazer são
Simplesmente choro
Talvez seja mesmo uma arte de arquitetura divina o Chrome
Me emociono como se tivesse acabado de ver comédia romântica boba
Pois mesmo este fumante boêmio e maldito sente
E talvez é por isto mesmo
Por não gostar de nada e
Pouco me identificar com o resto do mundo
Quando vejo idiotice de suprema bobeira e apelo emocional trapaceiro
Não me segure e chore fragilizado
Mas por que será?
Que penso em casar com tantas bundas?
E me apaixone assim por desconhecidas passageiras
O sorriso da garçonete, a dança da gordinha, a raiva da patricinha
Quero em frente a todos declarar meu amor eterno
Não amo mais quem fica do que quem passa
Pois sei que se quem passa ficasse seria um temporal

terça-feira, maio 24, 2011

Charada

Resolver a charada que vai te fazer melhor
Somar, dividir e ler o máximo de livros
Encontrar a resposta
Escondida em um sábio
Que não parece sábio e mora na rua
Viajar para um lugar diferente
E compreender o ritmo do mundo
Seguir um ideal de negação retrô a la boemia
Estourar a garganta em espasmos nervosos
Que refletem o desespero perante tudo
Desistir mais uma vez e se sentir cansado
Todos os desejos do mundo e nenhuma coragem
E essa eterna busca pela resposta da charada que não pode ser dita
Essa eterna superstição de que encontrando a resposta se tornará feliz

segunda-feira, maio 16, 2011

Carne

A carne é perniciosa e não deveríamos come la
O cigarro nos mata a cada tragada
O carro é o cigarro do meio ambiente
As preferências são fruto da publicidade
Todas as bebidas fazem mal
O que eu penso a respeito?
O que eu deveria pensar?
Talvez em algum dia
Por um pequeno momento
Eu tenha sedido

terça-feira, maio 10, 2011

Toda Essa Gente

E toda essa gente
Essa pouca gente
Que imunda
Que se acha louca
Que se gaba
Gente pouco honesta que se diz maluca
De não ter a cabeça no lugar
Que atreveu a me julgar como não se julga
E a se julgar como me julgaram
Com o paradoxo
Gente que me viu e pensou que fosse eu
A maluquisse, a loucura, que às vezes é até insana
É minha
Temos um pacto de amor abençoado e selado
A amei antes
Toda essa gente que quer roubar minha loucura
Essa coisa que às vezes nem tive
De tão são
De mais são que os todos comuns
Que fogem do erro
Essa gente
Gente que quando ousa envergonha a ousadia
Gente trapaceira, vigarista

segunda-feira, maio 09, 2011

Impressões

Você já teve a impressão
Você já teve impressões?
De que alguma coisa?
Digo, não de impressora
Mas impressões destas que às vezes encontra
E comove como se fosse algo que não é
E não necessariamente não é
Algo que é e talvez, quem sabe, é mesmo
E se fosse seria como que algo em certo nível além
Algo que não é,
Mas parece um tanto pequeno ser
E se fosse seria fantástico ou incrível
Incrível é quando algo não é no tanto exato
Que estimula e excita
Você já teve impressão?
Do como se fosse?
E até onde ela foi?
Foi uma pequena impressão?
Ou foi sobre o tudo?
Até onde pode uma destas ir?
Uma impressão que abarque a vida
Talvez não seja somente impressão

quarta-feira, abril 27, 2011

Embora

Me expressar e
Um modo fácil de ir embora sem culpa....
E a certeza
Ou constante dúvida
De que nunca direi
Por mais que haja tanto
Ou nada a se dizer
Parece que passou mais um ano
E as novidades
São que que as velhas dores não vão embora
Parece redundante
E agora
Mesmo que eu continue a crescer
O resto cresce junto
E eu estou sempre na fila
Pro fim da minha vida
E escorro pelos dedos
Não me encontro
Nunca mais

sábado, abril 23, 2011

Fiquei Normal

Dia destes estava dando um rolé pela rua quando de repente fiquei normal. Olhei em volta e eu olhava com olhos de gente normal. Compreendi finalmente o que o ser humano padrão sente. Resolvi caminhar pelo shopping para ver se eu conseguia passar despercebido como um deles. Comprei um CD de música famosa e elogiei um desconhecido. Olhei para o teto e uma barata caminhava de ponta cabeça. Parecia sonho... Voltei para casa com uma desconfiança de que não mais seria o insano que costumo ser. Subi as escadas um pé após o outro chegando ao andar correto. Abri a porta com a chave específica e entrei apartamento a dentro. Pela janela o céu era azul, com nuvens brancas e aviões, sob certa perspectiva, muitos. Comparado com o século XXIII e XXII talvez poucos aviões há, apesar de não sobrarem muitas dúvidas, nos séculos antigos, passados a tempos, anos, dias antes do atual, havia poucos aviões, pouquíssimos aliás, poderíamos dizer até que não havia aviões de tão raras e mínimas suas quantidades. Normal estava eu. Os aviões a viajar e eu estacionado tão preso quanto um homem preso por ter sido apanhado pelo senhor cometendo delito penalizavel a prisão. Estava estagnado dentro do meu quarto e nem percebia que talvez estava eu preso dentro da minha cabeça. Lembrei-me, e razão eu tinha, que preso todos estamos e é possível continuar louco e ainda sim ser normal. Fui louco então. Voltei ao que era sem deixar de me ser. Pois só sendo a si é possível ser o que se deseja e não se pode ser. Mesmo pois poder é um luxo muito não muito fácil na atual conjuntura social e econômica.

terça-feira, abril 19, 2011

Rasgo

Quando o que você acha que é tudo deixar de ser
Quando o mundo desmorona
Não é porque você acabou de vencer
Ou que você tenha caido finalmente
Quando a rachadura vai da Rússia a Portugal
Você não tem nada a ver com isso
Há acontecimentos e acontecimentos
Sobre acontecimentos e muitos outros mais
De tantos e tão grandes
Que se pode dizer certamente: é muito
O fim do mundo não é um evento
O fim do mundo é um universo de eventos
Interações e conflitos que não cabem na literatura mundial
E não é com você
É o mundo que desaba
Não foi sua culpa ou seu mérito
As moléculas se unem e se arranjam
E às vezes elas ficam de mal e se afastam
Porque é assim e só por isso e nada mais
E era de se esperar que você nem estivesse lá
Mas se lá estiver
Um drama gigantesco e outros milhares
Coisas que não se merece
E tudo é indigno
E será somente um pedaço do rasgo do mundo
Da imensidão que nunca foi grande coisa para ninguém
Se comparada com o quanto é imensa
E você fechará os olhos
E tapará os ouvidos
E ouvirá coisa que nunca se ouviu
E verá o que não sabia que se poderia ver
Quando o planeta se espalha pela galáxia
E a vida derrete em não há mais
Não interessa
Não interessa

Quando Se Poderia Dizer

A arte de não dizer o que se deveria dizer. De se dizer o que é evidente e o que espera que se diga no momento quase certo ou absurdamente errado. De dizer o que poderia ser dito, mas nunca é dito. O que é sempre pensado, mas não poderia ser mapeado. Os principais caminhos do labirinto sem fim. Quando se diz que se poderia, então eu deveria, ou seja, quando estamos a ponto de triarmos o nosso próprio caminho algo parece impossível pois a realidade é clara, o que somos é frágeis, e caminhamos, sem sabermos de certo nada, pois se não se sabe tudo, mas se anda, se ama, se chora por motivos bobos e sofremos uma leveza sem fim que corrói a alma e faz os olhos desmoronarem. Quando as arvores balançam e eu respiro, o céu gira, as descrições são indiferentes, mas bastante sedutoras. E é como se, mas não sei, mesmo porque, não. A vida do homem médio, entre este infinito de maiores e menores, de dentro e fora, das camadas egoístas e egocêntricas que enxergam, mas não se vêm. O perigo de ser abstrato eu já senti. O risco de ser pior que os outros, ou igual aos que não deveríamos ser. O mundo, meus caros, o mundo é incerto. Descrever é um nobre erro, um esnobe triunfo da arte. Descrever é crer, criar redemoinhos malvados que devoram o eu. Acredite em mim quando digo, viajar é parar, mesmo que não, e tentar, arrumar coisas que coisas não são, sendo ou não coisas as outras coisas, mesmo que quando partam nos deixem saudade. Amar é lembrar que não deveríamos.

sexta-feira, março 11, 2011

Textos Melancólicos

Como posso escrever textos melancólicos
Que fedem mendigagem e desespero
Mesmo sendo um nobre da Outra Ordem?
- Não da nova ordem ou da velha ordem, mas da Outra Ordem.
Daquela Ordem que ainda não identifiquei,
Mas que sempre esteve em mim e eu nela. -
Escrevo porque devo
Porque quando um texto me vê e pede a mim que seja endurecido
Materializado no quase material,
Neste abstrato metafórico que é mais contingente que a própria matéria
Não o nego
Não digo: "Vá embora! Não gosto de você, homem triste e sem futuro!"
Digo a ele, entre, sinta se em casa
Use do meu corpo e da minha mente
Como porta de entrada ao mundo dos fantasmas encarnados
Sou um poeta ético
E sempre atendo quando uma poesia respeitosamente me pede ajuda

quinta-feira, março 10, 2011

Incontigência

Estou preso no mundo solitário do morto que sou eu. Talvez o mundo seja este quarto com esta cama. Na cama encontra se o sério eu que, apesar de contorcido, está em pé e apesar de enterrado meu braço vai ao céu como uma antena tentando algo captar. Em minha frente talvez naquele canto um dragão chamado Arrependimento me fita enquanto lambe as asas. Me pergunto como pode ele lamber as asas tranquilamente e ao mesmo tempo ser algo de tamanha estranheza. À janela posso ver um pequeno pássaro de saudade do pai que me deixou para deixar de se ser. Já lá fora ao vento voam desespero, saudade e outras destas coisas inevitáveis que se encontra em todo lugar. Fico a acompanhar o tempo passar na sua lentidão e perfeição sem sentido algum. Meus olhos enterrados examinam o chão, e veem algumas cores desconhecidas, sons que não existem, histórias que não aconteceram e mais alguns outros alimentos do tipo. Coisas quase indescritíveis a quem não é o eu solitário vigiado pelo Arrependimento. Te digo: um dia vi um espelho. Objeto que guardava um pequeno pedaço do que se poderia ver do mundo. Uma imagem que dizia ser igual, mas era invertida. Outro dia, que talvez dia não fosse, pois dias não há, em um sonho me vi a correr por um corredor que me levava à saída deste lugar que é o tudo. Mas o sonho é uma realidade errante que brinca com os recalques da alma. E do incontingente eu não pergunto, somente respiro e fico a olhar meus demônios, meus brinquedos e estes tantos objetos com seus nomes. Confesso, eu os vigio, coisas, e os assombro e aflito fico a esperar um dia, mesmo sabendo que não pode ser, vos encontrar.

quinta-feira, março 03, 2011

Ouroboros

E eu corria dentro de mim em círculos e não sabia aonde aquilo dava. Mergulhava ao âmago, sentia as pulsadas do coração e via a corda que sustenta a alma. Depois saia, subia e me espalhava pela pele. Dizia que tudo bem, que é assim, que é normal, que é preciso ser bom. Olhava para fora como se fosse possível. Olhava para os lados como se não fosse eu quem olhava. Pensava em humor e em vícios e media meus pesos. E eu pesava quilos. E era tudo mais ou menos como deveria ser. E eu me devorava. Roía minha alma machucada e sem concerto. Minha língua me lambia e eu não entendia o que ela falava. E eu me digeria. E me via onde quer que procurasse. E eu me engolia e me mastigava. Me partia e me emendava. E por mais que eu fosse, sempre ficava. E se eu fosse outro, ou se eu não visse, não enxergasse, não escutasse, talvez nada fosse. Mas eu desejava e escolhia. E eu era eu. E eu sabia, mesmo que não dissesse, aquela vida era minha. E assim eu escorria, mas ainda era mais do que qualquer coisa podia.

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Farsa

Não sabemos de nada. Somos uma farsa. Não somente eu, todos nós. Venham comigo. Vamos juntos gritar para que todos possamos ouvir. Somos uma farsa. Não entendemos de nada. O nosso sistema político é caos. A riqueza e sucesso são aleatórios. Não entendemos nada de ética, de arte, de economia. Não sabemos nada sobre o futuro. Fingimos que entendemos e discutimos todo o dia sobre tudo que é assunto. Sejamos sensatos ao menos uma vez na vida. Não sabemos de nada. Não sabemos porque as coisas estão assim e nem como elas vão ficar. Fingimos para nós e para os outros que temos personalidade, mas fazemos o mesmo que todos fazem e não sabemos porque fazemos. Pare para ouvir alguém, o seu professor, o seu pai, o seu chefe. Lunáticos! Somos todos lunáticos. Acreditamos em fantasmas e extraterrestres. Não faz sentido. Simplesmente estamos aqui e as coisas acontecendo sem rumo.

quarta-feira, janeiro 12, 2011

O Quê

O que se deve sentir para escrever algo bom?
O que se deve fazer para sentir isto?
O que se deve dar para que te recebam?