Desventuras insólitas e sei lá...

sexta-feira, março 11, 2011

Textos Melancólicos

Como posso escrever textos melancólicos
Que fedem mendigagem e desespero
Mesmo sendo um nobre da Outra Ordem?
- Não da nova ordem ou da velha ordem, mas da Outra Ordem.
Daquela Ordem que ainda não identifiquei,
Mas que sempre esteve em mim e eu nela. -
Escrevo porque devo
Porque quando um texto me vê e pede a mim que seja endurecido
Materializado no quase material,
Neste abstrato metafórico que é mais contingente que a própria matéria
Não o nego
Não digo: "Vá embora! Não gosto de você, homem triste e sem futuro!"
Digo a ele, entre, sinta se em casa
Use do meu corpo e da minha mente
Como porta de entrada ao mundo dos fantasmas encarnados
Sou um poeta ético
E sempre atendo quando uma poesia respeitosamente me pede ajuda

quinta-feira, março 10, 2011

Incontigência

Estou preso no mundo solitário do morto que sou eu. Talvez o mundo seja este quarto com esta cama. Na cama encontra se o sério eu que, apesar de contorcido, está em pé e apesar de enterrado meu braço vai ao céu como uma antena tentando algo captar. Em minha frente talvez naquele canto um dragão chamado Arrependimento me fita enquanto lambe as asas. Me pergunto como pode ele lamber as asas tranquilamente e ao mesmo tempo ser algo de tamanha estranheza. À janela posso ver um pequeno pássaro de saudade do pai que me deixou para deixar de se ser. Já lá fora ao vento voam desespero, saudade e outras destas coisas inevitáveis que se encontra em todo lugar. Fico a acompanhar o tempo passar na sua lentidão e perfeição sem sentido algum. Meus olhos enterrados examinam o chão, e veem algumas cores desconhecidas, sons que não existem, histórias que não aconteceram e mais alguns outros alimentos do tipo. Coisas quase indescritíveis a quem não é o eu solitário vigiado pelo Arrependimento. Te digo: um dia vi um espelho. Objeto que guardava um pequeno pedaço do que se poderia ver do mundo. Uma imagem que dizia ser igual, mas era invertida. Outro dia, que talvez dia não fosse, pois dias não há, em um sonho me vi a correr por um corredor que me levava à saída deste lugar que é o tudo. Mas o sonho é uma realidade errante que brinca com os recalques da alma. E do incontingente eu não pergunto, somente respiro e fico a olhar meus demônios, meus brinquedos e estes tantos objetos com seus nomes. Confesso, eu os vigio, coisas, e os assombro e aflito fico a esperar um dia, mesmo sabendo que não pode ser, vos encontrar.

quinta-feira, março 03, 2011

Ouroboros

E eu corria dentro de mim em círculos e não sabia aonde aquilo dava. Mergulhava ao âmago, sentia as pulsadas do coração e via a corda que sustenta a alma. Depois saia, subia e me espalhava pela pele. Dizia que tudo bem, que é assim, que é normal, que é preciso ser bom. Olhava para fora como se fosse possível. Olhava para os lados como se não fosse eu quem olhava. Pensava em humor e em vícios e media meus pesos. E eu pesava quilos. E era tudo mais ou menos como deveria ser. E eu me devorava. Roía minha alma machucada e sem concerto. Minha língua me lambia e eu não entendia o que ela falava. E eu me digeria. E me via onde quer que procurasse. E eu me engolia e me mastigava. Me partia e me emendava. E por mais que eu fosse, sempre ficava. E se eu fosse outro, ou se eu não visse, não enxergasse, não escutasse, talvez nada fosse. Mas eu desejava e escolhia. E eu era eu. E eu sabia, mesmo que não dissesse, aquela vida era minha. E assim eu escorria, mas ainda era mais do que qualquer coisa podia.