Desventuras insólitas e sei lá...

quinta-feira, março 10, 2011

Incontigência

Estou preso no mundo solitário do morto que sou eu. Talvez o mundo seja este quarto com esta cama. Na cama encontra se o sério eu que, apesar de contorcido, está em pé e apesar de enterrado meu braço vai ao céu como uma antena tentando algo captar. Em minha frente talvez naquele canto um dragão chamado Arrependimento me fita enquanto lambe as asas. Me pergunto como pode ele lamber as asas tranquilamente e ao mesmo tempo ser algo de tamanha estranheza. À janela posso ver um pequeno pássaro de saudade do pai que me deixou para deixar de se ser. Já lá fora ao vento voam desespero, saudade e outras destas coisas inevitáveis que se encontra em todo lugar. Fico a acompanhar o tempo passar na sua lentidão e perfeição sem sentido algum. Meus olhos enterrados examinam o chão, e veem algumas cores desconhecidas, sons que não existem, histórias que não aconteceram e mais alguns outros alimentos do tipo. Coisas quase indescritíveis a quem não é o eu solitário vigiado pelo Arrependimento. Te digo: um dia vi um espelho. Objeto que guardava um pequeno pedaço do que se poderia ver do mundo. Uma imagem que dizia ser igual, mas era invertida. Outro dia, que talvez dia não fosse, pois dias não há, em um sonho me vi a correr por um corredor que me levava à saída deste lugar que é o tudo. Mas o sonho é uma realidade errante que brinca com os recalques da alma. E do incontingente eu não pergunto, somente respiro e fico a olhar meus demônios, meus brinquedos e estes tantos objetos com seus nomes. Confesso, eu os vigio, coisas, e os assombro e aflito fico a esperar um dia, mesmo sabendo que não pode ser, vos encontrar.

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