Desventuras insólitas e sei lá...

quinta-feira, março 03, 2011

Ouroboros

E eu corria dentro de mim em círculos e não sabia aonde aquilo dava. Mergulhava ao âmago, sentia as pulsadas do coração e via a corda que sustenta a alma. Depois saia, subia e me espalhava pela pele. Dizia que tudo bem, que é assim, que é normal, que é preciso ser bom. Olhava para fora como se fosse possível. Olhava para os lados como se não fosse eu quem olhava. Pensava em humor e em vícios e media meus pesos. E eu pesava quilos. E era tudo mais ou menos como deveria ser. E eu me devorava. Roía minha alma machucada e sem concerto. Minha língua me lambia e eu não entendia o que ela falava. E eu me digeria. E me via onde quer que procurasse. E eu me engolia e me mastigava. Me partia e me emendava. E por mais que eu fosse, sempre ficava. E se eu fosse outro, ou se eu não visse, não enxergasse, não escutasse, talvez nada fosse. Mas eu desejava e escolhia. E eu era eu. E eu sabia, mesmo que não dissesse, aquela vida era minha. E assim eu escorria, mas ainda era mais do que qualquer coisa podia.

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